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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sobre a distância.

    

   Então é isso, chegou a hora daquela coisa chamada faculdade. Ou aquele período da vida onde a gente tem que deixar tudo para trás. Por sabe-se lá quanto tempo. É a parte onde o futuro fala mais alto do que a gente, digo eu e você. Juntos.
    O engraçado é que isso não estava na nossa lista, você sabe, eu ir morar à beira do mar e você ir morar na divisa com o outro país, do outro lado do estado. A gente queria mesmo é viajar sim, mas com as mãos dadas. Nem precisaríamos de travesseiro durante a viagem, eu dormiria no seu ombro e você se apoiaria em minha cabeça. Escutaríamos música no mesmo fone de ouvidos até você fazer uma careta e reclamar do meu gosto musical.
    Nos nossos planos não íamos precisar passar horas falando sobre qualquer coisa no telefone só pra lembrarmos como é bom escutar a voz um do outro. Ou nos preocuparmos um com o outro quando quisermos sair pra beber e esquecer o quanto a falta de estarmos juntos machuca, mais do que esfolar os joelhos.
   Mas isso está longe de ser uma despedida. Eu não conseguiria. Digo deixar você ir. Não completamente. A distância é somente um único obstáculo e estar longe de você para sempre, nosso término, significaria uma maratona de obstáculos que eu nunca conseguiria vencer. Porque estar perto de você é o que me faz sentir como se eu pudesse vencer todos eles.    
   E aí entra aquela pequena palavra que faz toda a diferença no quesito felicidade de um casal: paciência. No fim do dia, todo mundo sabe que o amor, entre todas as coisas, sempre vai estar lá escondido atrás de uma boa dose de paciência. E assim vai ser. Até o fim. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Surpresas de um verão, parte II: vizinho misterioso

     

    A posição que ele estava denunciava seu corpo definido, o que quase me fez esquecer que a revista que ele segurava era do The Kooks, banda que estava no topo da lista das minhas favoritas. Parecia exatamente o tipo de garoto misterioso que atrai uma manada de garotas. Fiquei pensando como seria o seu rosto.
     Quando ele fez um movimento para levantar da cama fechei a cortina rapidamente. Qual é a dessa cidade? Paraíso dos garotos? Comecei a acreditar que passar o verão aqui seria tão ruim assim.
     Só lembrei o que tinha que fazer quando tropecei nos meus sapatos espalhados no chão.

ϟ

       A claridade através da cortina fininha me acordou. Quando desci para tomar café tio Dan estava de saída.
       - Bom dia, dorminhoca!
       - Bom dia despertador de galinhas!- Devolvi.
     - Vou para o café mais cedo hoje, tenho umas coisas a resolver. Tem café quentinho na cafeteira se quiser.
       -Não se preocupe comigo Dan – peguei uma maçã e meu livro e saí para o quintal.
       Uma brisa fresca bateu no meu rosto, pensei em pegar meu casaco, mas paralisei quando olhei para o lado. O vizinho misterioso estava lavando sua Harley Davidson no quintal dele, desta vez com camisa e sem revista no rosto.
      Não que eu tenha desenhado o rosto dele na minha cabeça na noite anterior, mas se eu o tivesse feito, teria chegado muito perto de como era.  Os traços triangulares combinavam perfeitamente com o resto do corpo, molhado com os respingos. O cabelo bagunçado e a agilidade dele me mantiveram hipnotizada até ele sair para encher o balde novamente.
Deitei na rede para devorar o livro que tinha comprado em Manhattan e estava na lista dos Best-sellers do New York Times.
     Do nada uma figura molhada aparece a poucos metros de mim me fazendo derrubar o livro de susto.
     - Ei, desculpa atrapalhar. Por acaso seu tio pode me emprestar uma mangueira? – ele falou passando a mão nos cabelos bagunçados e tentando esconder o embaraço da situação.
      - Como sabe que ele é meu tio? – como consegui não gaguejar diante do daquele sotaque?
      - Anm, vi vocês chegando ontem à tarde e sabe como é, cidade pequena – ele riu.
   - É, ainda estou me acostumando. Sou Lavynia, ou melhor, Lavy – tentei parecer despreocupada.
      - Sou Luke. Ah e se não souber onde está não tem problema.
     “O que” está? Eu esqueci porque ele estava ali. Os malditos olhos azuis dele levam toda a culpa.
      - Ah sim, só um minuto – encontrei uma mangueira nos fundos e dei a ele.
     - Obrigado, desculpa incomodar- balancei a cabeça em negação e ele voltou a lavagem.
      Continuei observando-o com a desculpa de estar lendo meu, antes interessante, livro.

domingo, 27 de abril de 2014

Madrugada de surpresas

    


     Balanço o último gole de uísque no copo enquanto a chuva cai lá fora. Casa vazia, pernas inquietas. À esse ponto já devia ter me acostumado com dias como esse. Sabe, não sou do tipo que se acostuma facilmente com ausência. Ainda mais se for certa ausência de algo que nem uísque cura. A sua.
     O rádio relógio me esfrega as 02h30 da manhã na cara. Tomo mais uma dose para acalmar a insônia. Pego as chaves do carro e quando percebo estou estacionando na frente de seu apartamento. Eu já deveria saber, as luzes estavam apagadas. O que significa que deve ter saído com a primeira loira que esbarrou no banheiro da balada.
   Por que a bebida não acaba com a insegurança como acaba com a timidez? Droga. Mais uma noite de sábado querendo controlar o incontrolável: a sua irritante mania de liberdade.
    Desisti de lutar contra o inevitável: você não estava mais sobre meus cuidados. A velha história de um cuidar do outro não importava o que acontecesse já se havia desgastado e ido bueiro abaixo com a chuva. Hora de respirar fundo e acabar com isso.
      Começo a discar o número no meu celular quando reparei que uma luz se acendeu na sala. Então seria pessoalmente, ali e agora. Abro a porta e começo a falar, mas sou interrompida por uma mão que cobre minha boca imediatamente seguida de um shhhh.
    A sala estava lotada de balões de gás vermelhos com nossas fotos e no centro uma fileira de balões brancos escrito C-A-S-A C-O-M-I-G-O-? Então era isso. O motivo do mistério e do sumiço: a surpresa elaborada.
     Deixei todas as inseguranças para trás e o beijei como se nunca o tivesse feito, depois sussurrei sorrindo em seu ouvido um demorado: e eu tenho escolha?

sábado, 26 de abril de 2014

Da série vida real, capítulo único.


Já perdi as contas de quantas vezes bati a porta do nosso quarto tentando aliviar a tensão de nossas brigas. É incrível como casamentos são muito mais bonitos nas fotos do álbum guardado naquele lugar alto do armário. Sabe, de alguma maneira eu sempre soube que quando se resolve juntar os motivos para sorrir, os desentendimentos sempre se escondem na bagagem. Só não esperava que isso acontecesse com a gente.
    Volto naquele primeiro dia da faculdade, onde esbarrei com um calouro da turma das engenharias, com o cabelo bagunçado e aquela cara –sexy- de sério. Naquele momento eu imaginei como seria acordar todas as manhãs e enxergar o seu rosto ao abrir os olhos. Eu queria isso. E de alguma forma incrível minha timidez e as tão odiadas sardas te encantaram do mesmo jeito que sua pintinha no canto da boca fez comigo.
    Casamos, nos mudamos para aquele apartamento no final da rua, tivemos outra versão de nós - um mini cara de sério, de cabelo bagunçado - e algum tempo depois, nossa primeira briga. A partir daí, a rotina vem tentando acabar com a tranquilidade do nosso relacionamento dia após dia.  
    Não estou dizendo que não te amo mais. Na verdade, até acredito que as imperfeições do nosso casamento são o que torna tudo isso real. Não quero uma vida com sorrisos artificiais e falsas declarações de “está tudo bem”. O que eu quero é exatamente isso: a vida real, a realidade com você. 
    Porque o amor perfeito não passa de mais uma ideia concreta que colocaram na nossa cabeça. Para mim, o amor verdadeiro mesmo é a capacidade de reconciliar-se depois de uma briga. E com um beijo roubado de preferência. Ei psiu, ta esperando o quê? 

Recaída aleatória


      A luz da lua cheia está invadindo a minha janela e iluminando meu quarto. A última vez que ela esteve tão grande e intensamente luminosa você ainda pertencia a mim.
       Me faz voltar no dia em que ficamos deitados naquele banco, em silêncio, escutando a respiração um do outro e observando a simetria das estrelas numa noite qualquer de outono.
      Tanta coisa mudou desde então. Agora seu riso tem outros motivos e pertence à outra pessoa. Seu sorriso torto continua lá, a maldita marca registrada que não pertence mais ao mesmo, mas a outro você.
      Agradeço por te ver por aí e não sentir o chão se despedaçando como senti milhares de vezes, o que quase significa que te superei. Não sinto mais sua falta, sinto falta do você no passado. No você que não existe mais, aquele você meu.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Pelas estradas do amor


     Sabe quando a gente aprende a dirigir e demora a se acostumar com o espelho retrovisor? Bem, quando me adaptei a ele acabei me apegando mais do que deveria. E esse é mais ou menos o meu problema. Olhar muito para trás. Para o tempo que se foi e levou os dias que dinheiro nenhum faz voltar. Os dias dos amores do passado.
     Sempre fui tachada de “aquela menina do grupo que não se apaixona”. Dá pra provar que isso não é bem uma verdade quando olho para minha mão esquerda e uma aliança de ouro está aterrissada ali. É incrível como as coisas não pedem permissão para nossos planos pra acontecerem.
     Mas isso tudo não é a respeito da pessoa – incrível - que me convenceu a entrar nessa rua sem saída. Na verdade, é sobre aqueles que ficaram no espelho retrovisor. E que uma vez quase me fizeram permanecer naquele ponto de ônibus. Apesar de eu sempre pegar o ônibus para o caminho contrario deles, as lembranças sempre me fazem sorrir e, bem, pensar.
     A maioria das garotas já teve um rolo com o garoto problema que é desaprovado pelas amigas e enrosca nos pensamentos por muitas noites. Infelizmente estou incluída. Não que eu me arrependa de cada detalhe. A intensidade da troca de olhares e as conversas despreocupadas nas noites de sexta fez alguma coisa valer a pena.
    Outro tinha o combo cabeludo, craque nos cálculos, misterioso e fones de ouvido como parte do corpo. Juro que não sei o que seria de mim – ou do meu futuro- se não fosse a ajuda dele com as exatas. Nunca me esqueci do jeito tímido como falava e como ele ficava bonito concentrado.
   Outro era dançarino, mais precisamente de dança de rua. Daqueles que hipnotizam a plateia e claro, todas as menininhas loucas por caras mais velhos. No pouco tempo que estivemos juntos ele me fez sentir como se eu fosse única, sem nem ao menos saber meu sobrenome, como raras vezes me senti em toda a minha vida colegial – aquela dos caras babacas que não merecem ser lembrados.
     Apesar de tudo não passar de um “quase”, cada um deles deixou alguma coisa pra mim. Uma lembrança intensa, um pensamento feliz ou um sentimento que me levava a outros mundos.
     Cada pedacinho dos relacionamentos que ficaram comigo foram construindo o todo. E isso é a maior parte do que sou hoje. Fim.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Esperar: ato ou efeito de morrer aos poucos



    Me dirijo até a última fileira vazia do trem. Pelo menos as cidades pequenas tem a vantagem de não ter trens lotados. Sempre fui a única -a esquisita-do meu grupo de amigos que gostava de ficar em silêncio. Com exceção do silêncio temperado à fones de ouvido no último volume.
    Ver as folhas caindo das árvores vítimas do outono e as águas do lago se agitando costumava relaxar qualquer preocupação que se apoderava de mim. Mas agora que você está a muitos quilômetros desse trem, esse remédio parece não ter o mesmo efeito.
    Paro em um local recheado de árvores intercaladas nas cores marrom, vermelhas e amarelas. Nossa última conversa foi exatamente nesse banco castigado pelo frio. A sua pressa em acrescentar uma formação ao seu nome, deixou o nós para o segundo plano, mas a minha ingenuidade não permitiu o nosso fim, digo, completamente.
    O tempo custou a passar, mas passou. E aqui estou eu, esperando por você. Esperando pelo seu suéter macio roçando no meu rosto, esperando pela sua mania de me deixar constrangida ao ficar me olhando do seu jeito estranho. Esperando pelo abraço que me protegia de tudo. Esperando pelo dia que eu teria isso mais uma vez.
    Aí tudo que tenho evitado lembrar invade meus pensamentos impiedosamente. Você não vai voltar. Não já, não hoje. Talvez algum dia apareça pra lembrar dos tempos que fugíamos da escola, desesperados por um aconchego no nosso lugarzinho nesse maldito parque. Ou talvez esse dia não chegue. Quem é que vai saber.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Você, quem?


 Hoje estou obcecada em uma ideia de ser feliz.
 Com os primeiros raios solares surgiu uma alegria dentro de mim, que nem eu sabia que poderia existir. De repente, o meu corpo com seus inúmeros defeitos pareceu perfeito no espelho, o meu cabelo pareceu mais bonito e meu sorriso brilhou. Foi como se todas as vontades de cantar até não agüentar mais, de dançar no meio da rua, de dar oi a qualquer desconhecido e sorrir para todos os idiotas que um dia me fizeram sofrer, explodissem de algum canto escondido.
 Acredite minha vida não é perfeita. Não tenho um talento especial que admire a todos. Meus problemas permanecem aqui. No momento, não estou com alguém especial que me faça esquecer que a realidade existe. Mas ainda assim estou feliz.
 Hoje me deu vontade de viver a minha vida surpreendentemente sem você nela.