terça-feira, 21 de julho de 2015

O meu amor e o amor de "fast food"


Untitled


Nesse mundo do “usa e joga fora”, numa noite agradável de verão, no meio de uma música aleatória do Red Chilli Peppers, eu o encontrei.
Noite festiva, formatura de segundo grau dele pra ser exata. Com direito a fogos de artificio, beijos tímidos e demoradas troca de olhares. Ele mal notou no meu vestido simples e minha maquiagem feita às pressas, mas se demorou nas minhas sardas e no meu sorriso fácil.
A sua pintinha no canto da boca, seu cabelo bagunçado e sua notável timidez me mantiveram numa hipnose indescritível até o final. E tudo o que eu pensava era o que aconteceria depois que as luzes acenderiam e o dia amanhecesse. Maldita ansiedade.
 Dizem que amor a gente não acha nas festas, mas Deus! Se isso for mesmo verdade, é incrível como sou sortuda. Depois de tantos pós festas jogada no chão do banheiro, com a maquiagem borrada e o coração em pedaços, essa vez foi, no mínimo, incrivelmente diferente.
Um sms de “bom dia” e BOOM: não consegui conter a sensação de ter a felicidade entrando pela porta da frente.
É uma pena que isso tudo se torna a cada dia que passa mais e mais raro nesses tempos de “tinder”.
Vivemos numa época onde os encontros em festa são tipo “fast food” rápido, prejudicial e descartável. Tinder vai, tinder vem. Um, dois, quatro, onze. Cem, trezentos, quinhentos likes. Como se o amor fosse uma espécie de perda de tempo e os likes em conjunto com os encontros “fast food” uma espécie de preenchimento do vazio satisfatória.
Só quem já passou pela experiência de uma tarde de domingo cheia de amor sabe que essa coisa toda de amor fast food é uma bobagem e a verdadeira “perda de tempo”. Espero o dia em que todos fiquem sabendo disso também.

PS: sua pintinha ainda me mantem hipnotizada toda vez que olho pra ela. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sobre a distância.

    

   Então é isso, chegou a hora daquela coisa chamada faculdade. Ou aquele período da vida onde a gente tem que deixar tudo para trás. Por sabe-se lá quanto tempo. É a parte onde o futuro fala mais alto do que a gente, digo eu e você. Juntos.
    O engraçado é que isso não estava na nossa lista, você sabe, eu ir morar à beira do mar e você ir morar na divisa com o outro país, do outro lado do estado. A gente queria mesmo é viajar sim, mas com as mãos dadas. Nem precisaríamos de travesseiro durante a viagem, eu dormiria no seu ombro e você se apoiaria em minha cabeça. Escutaríamos música no mesmo fone de ouvidos até você fazer uma careta e reclamar do meu gosto musical.
    Nos nossos planos não íamos precisar passar horas falando sobre qualquer coisa no telefone só pra lembrarmos como é bom escutar a voz um do outro. Ou nos preocuparmos um com o outro quando quisermos sair pra beber e esquecer o quanto a falta de estarmos juntos machuca, mais do que esfolar os joelhos.
   Mas isso está longe de ser uma despedida. Eu não conseguiria. Digo deixar você ir. Não completamente. A distância é somente um único obstáculo e estar longe de você para sempre, nosso término, significaria uma maratona de obstáculos que eu nunca conseguiria vencer. Porque estar perto de você é o que me faz sentir como se eu pudesse vencer todos eles.    
   E aí entra aquela pequena palavra que faz toda a diferença no quesito felicidade de um casal: paciência. No fim do dia, todo mundo sabe que o amor, entre todas as coisas, sempre vai estar lá escondido atrás de uma boa dose de paciência. E assim vai ser. Até o fim. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

O discurso de formatura de Gwen Stacy do filme Espetacular Homem Aranha 2

     Gwen Stacy


     
   "Eu sei que todos pensam que somos imortais. Era pra ser assim. Estamos nos formando. Mas como nossos 4 anos de colegial, o que torna a vida valiosa é não durar pra sempre. O que a torna preciosa é que ela termina. Sei disso agora mais que nunca. Hoje é especial para nos lembrar que tempo é sorte. Então não desperdice tempo vivendo a vida de outro. Faça a sua valer alguma coisa. Lute pelo o que se importa. Seja o que for. Porque mesmo que tenhamos dúvidas, não tem jeito melhor de viver."

     "É fácil se sentir esperançoso em um lindo dia como hoje, mas haverá dias sombrios a nossa frente. Dias em que você se sentirá sozinho, e é nesses dias que precisamos de esperança. Não importa o quão ruim fique ou o quão perdido você se sente, me prometa que você terá esperanças. Mantenha-a viva. Temos que ser maiores do que o que sofremos. Meu desejo para você é que se torne a esperança. As pessoas precisam disso. E mesmo se falharmos não há forma melhor de se viver. Como vemos aqui hoje todas as pessoas que nos ajudam a formar quem somos. Eu sei que parece que estamos dizendo adeus, mas carregaremos cada um de vocês em todas as coisas que faremos e para nos lembrarmos de quem somos e de quem deveríamos ser. Passei ótimos anos com vocês, eu vou sentir muito a falta de todos." 

  Poucas coisas me fizeram parar pra pensar tanto quanto essa mini lição de vida que o filme traz. 
PS: não é spoiler, ok?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Surpresas de um verão, parte II: vizinho misterioso

     

    A posição que ele estava denunciava seu corpo definido, o que quase me fez esquecer que a revista que ele segurava era do The Kooks, banda que estava no topo da lista das minhas favoritas. Parecia exatamente o tipo de garoto misterioso que atrai uma manada de garotas. Fiquei pensando como seria o seu rosto.
     Quando ele fez um movimento para levantar da cama fechei a cortina rapidamente. Qual é a dessa cidade? Paraíso dos garotos? Comecei a acreditar que passar o verão aqui seria tão ruim assim.
     Só lembrei o que tinha que fazer quando tropecei nos meus sapatos espalhados no chão.

ϟ

       A claridade através da cortina fininha me acordou. Quando desci para tomar café tio Dan estava de saída.
       - Bom dia, dorminhoca!
       - Bom dia despertador de galinhas!- Devolvi.
     - Vou para o café mais cedo hoje, tenho umas coisas a resolver. Tem café quentinho na cafeteira se quiser.
       -Não se preocupe comigo Dan – peguei uma maçã e meu livro e saí para o quintal.
       Uma brisa fresca bateu no meu rosto, pensei em pegar meu casaco, mas paralisei quando olhei para o lado. O vizinho misterioso estava lavando sua Harley Davidson no quintal dele, desta vez com camisa e sem revista no rosto.
      Não que eu tenha desenhado o rosto dele na minha cabeça na noite anterior, mas se eu o tivesse feito, teria chegado muito perto de como era.  Os traços triangulares combinavam perfeitamente com o resto do corpo, molhado com os respingos. O cabelo bagunçado e a agilidade dele me mantiveram hipnotizada até ele sair para encher o balde novamente.
Deitei na rede para devorar o livro que tinha comprado em Manhattan e estava na lista dos Best-sellers do New York Times.
     Do nada uma figura molhada aparece a poucos metros de mim me fazendo derrubar o livro de susto.
     - Ei, desculpa atrapalhar. Por acaso seu tio pode me emprestar uma mangueira? – ele falou passando a mão nos cabelos bagunçados e tentando esconder o embaraço da situação.
      - Como sabe que ele é meu tio? – como consegui não gaguejar diante do daquele sotaque?
      - Anm, vi vocês chegando ontem à tarde e sabe como é, cidade pequena – ele riu.
   - É, ainda estou me acostumando. Sou Lavynia, ou melhor, Lavy – tentei parecer despreocupada.
      - Sou Luke. Ah e se não souber onde está não tem problema.
     “O que” está? Eu esqueci porque ele estava ali. Os malditos olhos azuis dele levam toda a culpa.
      - Ah sim, só um minuto – encontrei uma mangueira nos fundos e dei a ele.
     - Obrigado, desculpa incomodar- balancei a cabeça em negação e ele voltou a lavagem.
      Continuei observando-o com a desculpa de estar lendo meu, antes interessante, livro.

domingo, 27 de abril de 2014

Sobre superficialidade

    

    Flashes. Sorrisos. Caretas. Como é fácil ser feliz nas fotos né? Só dar uma arrumadinha aqui e ali, escolher o melhor ângulo e pronto, nossa vida é perfeita nas redes sociais. Queremos sempre ser bem vistas aos olhos de todos, aí está tudo bem. Mas isso é mesmo suficiente?
    O espelho nos mostra a nossa imagem e não tem jeito, acabamos escravas dela. O problema é que o espelho não é nada mais do que uma simples superfície plana, sem profundidade alguma. Pra que ter caráter quando se tem um corpo bonito, não é? A verdade é que ninguém mais liga pra o que tem além da aparência.
    Isso se comprova nas baladas. É só olhar ao redor pra perceber que a maioria não está se divertindo de verdade, porque pra isso é preciso parar de se preocupar se o cabelo ainda está no lugar, se a maquiagem está borrada ou se as unhas não quebraram.
     As pessoas têm que aprender que o tempo vai passar e a aparência não vai definir quem elas são, porque de uma maneira ou outra tudo muda mais tarde - se é que você me entende.
     Óbvio que não estou dizendo pra pararmos de nos cuidar e não ligarmos pra autoestima. É muito importante nos sentirmos bonitas e seguras sim, mas não deixar a vaidade passar por cima dos valores é essencial.
       E aí, quem você prefere agradar/ver feliz? Você ou “os outros”? 

(Texto escrito em 2011)

Madrugada de surpresas

    


     Balanço o último gole de uísque no copo enquanto a chuva cai lá fora. Casa vazia, pernas inquietas. À esse ponto já devia ter me acostumado com dias como esse. Sabe, não sou do tipo que se acostuma facilmente com ausência. Ainda mais se for certa ausência de algo que nem uísque cura. A sua.
     O rádio relógio me esfrega as 02h30 da manhã na cara. Tomo mais uma dose para acalmar a insônia. Pego as chaves do carro e quando percebo estou estacionando na frente de seu apartamento. Eu já deveria saber, as luzes estavam apagadas. O que significa que deve ter saído com a primeira loira que esbarrou no banheiro da balada.
   Por que a bebida não acaba com a insegurança como acaba com a timidez? Droga. Mais uma noite de sábado querendo controlar o incontrolável: a sua irritante mania de liberdade.
    Desisti de lutar contra o inevitável: você não estava mais sobre meus cuidados. A velha história de um cuidar do outro não importava o que acontecesse já se havia desgastado e ido bueiro abaixo com a chuva. Hora de respirar fundo e acabar com isso.
      Começo a discar o número no meu celular quando reparei que uma luz se acendeu na sala. Então seria pessoalmente, ali e agora. Abro a porta e começo a falar, mas sou interrompida por uma mão que cobre minha boca imediatamente seguida de um shhhh.
    A sala estava lotada de balões de gás vermelhos com nossas fotos e no centro uma fileira de balões brancos escrito C-A-S-A C-O-M-I-G-O-? Então era isso. O motivo do mistério e do sumiço: a surpresa elaborada.
     Deixei todas as inseguranças para trás e o beijei como se nunca o tivesse feito, depois sussurrei sorrindo em seu ouvido um demorado: e eu tenho escolha?

sábado, 26 de abril de 2014

Da série vida real, capítulo único.


Já perdi as contas de quantas vezes bati a porta do nosso quarto tentando aliviar a tensão de nossas brigas. É incrível como casamentos são muito mais bonitos nas fotos do álbum guardado naquele lugar alto do armário. Sabe, de alguma maneira eu sempre soube que quando se resolve juntar os motivos para sorrir, os desentendimentos sempre se escondem na bagagem. Só não esperava que isso acontecesse com a gente.
    Volto naquele primeiro dia da faculdade, onde esbarrei com um calouro da turma das engenharias, com o cabelo bagunçado e aquela cara –sexy- de sério. Naquele momento eu imaginei como seria acordar todas as manhãs e enxergar o seu rosto ao abrir os olhos. Eu queria isso. E de alguma forma incrível minha timidez e as tão odiadas sardas te encantaram do mesmo jeito que sua pintinha no canto da boca fez comigo.
    Casamos, nos mudamos para aquele apartamento no final da rua, tivemos outra versão de nós - um mini cara de sério, de cabelo bagunçado - e algum tempo depois, nossa primeira briga. A partir daí, a rotina vem tentando acabar com a tranquilidade do nosso relacionamento dia após dia.  
    Não estou dizendo que não te amo mais. Na verdade, até acredito que as imperfeições do nosso casamento são o que torna tudo isso real. Não quero uma vida com sorrisos artificiais e falsas declarações de “está tudo bem”. O que eu quero é exatamente isso: a vida real, a realidade com você. 
    Porque o amor perfeito não passa de mais uma ideia concreta que colocaram na nossa cabeça. Para mim, o amor verdadeiro mesmo é a capacidade de reconciliar-se depois de uma briga. E com um beijo roubado de preferência. Ei psiu, ta esperando o quê? 

Recaída aleatória


      A luz da lua cheia está invadindo a minha janela e iluminando meu quarto. A última vez que ela esteve tão grande e intensamente luminosa você ainda pertencia a mim.
       Me faz voltar no dia em que ficamos deitados naquele banco, em silêncio, escutando a respiração um do outro e observando a simetria das estrelas numa noite qualquer de outono.
      Tanta coisa mudou desde então. Agora seu riso tem outros motivos e pertence à outra pessoa. Seu sorriso torto continua lá, a maldita marca registrada que não pertence mais ao mesmo, mas a outro você.
      Agradeço por te ver por aí e não sentir o chão se despedaçando como senti milhares de vezes, o que quase significa que te superei. Não sinto mais sua falta, sinto falta do você no passado. No você que não existe mais, aquele você meu.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Pelas estradas do amor


     Sabe quando a gente aprende a dirigir e demora a se acostumar com o espelho retrovisor? Bem, quando me adaptei a ele acabei me apegando mais do que deveria. E esse é mais ou menos o meu problema. Olhar muito para trás. Para o tempo que se foi e levou os dias que dinheiro nenhum faz voltar. Os dias dos amores do passado.
     Sempre fui tachada de “aquela menina do grupo que não se apaixona”. Dá pra provar que isso não é bem uma verdade quando olho para minha mão esquerda e uma aliança de ouro está aterrissada ali. É incrível como as coisas não pedem permissão para nossos planos pra acontecerem.
     Mas isso tudo não é a respeito da pessoa – incrível - que me convenceu a entrar nessa rua sem saída. Na verdade, é sobre aqueles que ficaram no espelho retrovisor. E que uma vez quase me fizeram permanecer naquele ponto de ônibus. Apesar de eu sempre pegar o ônibus para o caminho contrario deles, as lembranças sempre me fazem sorrir e, bem, pensar.
     A maioria das garotas já teve um rolo com o garoto problema que é desaprovado pelas amigas e enrosca nos pensamentos por muitas noites. Infelizmente estou incluída. Não que eu me arrependa de cada detalhe. A intensidade da troca de olhares e as conversas despreocupadas nas noites de sexta fez alguma coisa valer a pena.
    Outro tinha o combo cabeludo, craque nos cálculos, misterioso e fones de ouvido como parte do corpo. Juro que não sei o que seria de mim – ou do meu futuro- se não fosse a ajuda dele com as exatas. Nunca me esqueci do jeito tímido como falava e como ele ficava bonito concentrado.
   Outro era dançarino, mais precisamente de dança de rua. Daqueles que hipnotizam a plateia e claro, todas as menininhas loucas por caras mais velhos. No pouco tempo que estivemos juntos ele me fez sentir como se eu fosse única, sem nem ao menos saber meu sobrenome, como raras vezes me senti em toda a minha vida colegial – aquela dos caras babacas que não merecem ser lembrados.
     Apesar de tudo não passar de um “quase”, cada um deles deixou alguma coisa pra mim. Uma lembrança intensa, um pensamento feliz ou um sentimento que me levava a outros mundos.
     Cada pedacinho dos relacionamentos que ficaram comigo foram construindo o todo. E isso é a maior parte do que sou hoje. Fim.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Surpresas de um verão, parte I: Brangsville

        LightHouse

       Dizem que adolescentes tem tendência a contrariar os pais, mas desta vez eu não sou a rebelde da história, tenho clara certeza disso. É errado pensar que as minhas férias são preciosas demais pra ficarem na abstinência de comunicação virtual e qualquer tipo de diversão?
        Bem, o fato é que minha mãe vai fazer um documentário na Somália durante todo o verão e eu vou ter que ficar na casa do tio Dan em Brangsville, na Inglaterra. Tudo bem, falando assim até parece divertido, mas Brangsville mal passa dos 8 mil habitantes, o que na certa significa: tédio. E ainda não acabou: a cidade não tem acesso a sinal de wireless e muito menos  filial da Starbucks, minha cafeteria preferida.
         -Você vai sobreviver Lavynia, confie em mim, Tio Dan vai te atender no que precisar- É uma pena que não puxei o otimismo da minha mãe, porque seria mesmo muito útil.
          -Mãe, promete que vai me deixar ir à viagem da escola para Paris no inverno?
         -Claro querida, coloque um sorriso nessa cara emburrada e seja paciente.
 Bem que eu queria. Saí para me despedir de Manhattan com meus amigos na sexta e peguei o voo no sábado de manhã no maior clima de velório.
Tenho inveja das pessoas que se sentem bem voando, e conseguem manter o bom humor, porque além de ser desconfortável e tudo o mais, os pensamentos das coisas que aconteceram não me deixam em paz até eu colocar o pé no chão. Não que eu seja uma rainha do crime e essas coisas, mas me arrependo das muitas vezes que fui ingrata com minha mãe e sumi por aí querendo dar um tempo dos dramas dela. Não a culpo pelo acidente de carro que matou meu pai, mas sempre agi indiferente.
 Chegar de pensar, hora de tomar o remedinho tiro e queda e tirar da bolsa a máscara de dormir que roubei da minha mãe. ZzZZZzzzZ.
ϟ
 Quando acordei ainda meio zonza, estávamos pousando. Tio Dan estava me esperando no aeroporto na hora certa, o que é de se surpreender.
 -Bem vinda a Brangsville Lavy! – Diz.
Nossa isso é tudo que eu sempre quis! Pensei ironicamente.
- Obrigada tio Dan.
- Vamos, não vai ser tão ruim assim- Dan piscou.
- Tomara– Brinquei.
       Brangsville é uma cidade portuária e se situa perto de um farol, o que a torna quase famosa pelas suas paisagens, mas não menos deserta. No caminho para a casa de Tio Dan vi uns brechós, poucas e pequenas lojas, clubes e o velho café que ele administra a um quarteirão de sua casa, onde estacionamos o carro.
- Chegamos mi lady – ele dramatizou com um gesto.
     Achei a casa é bem parecida com a maioria das casas de manhattan: dois andares, sótão, um vasto jardim, e o que me impressionou: aos fundos uma vista privilegiada do farol perto do lago, que ficava a uns poucos quilômetros dali e combinado com a plantação de trigos que o rodeava me lembrou muito as fotos que eu vejo no “weheartit”.
-Uau - falei boquiaberta. Pelo menos minha câmera não vai ficar abandonada como meu celular.
-Você precisa ver isso no por do sol, é de perder o fôlego! Olha que seu tio aqui não desperdiça elogios- ele piscou pra mim, estalando os dedos.
Um labrador surgiu dos fundos e partiu diretamente na minha direção, me derrubando com suas patas enormes.
 - E esse é o Lenny.
- Oi Lenny! – apertei-o.
- Se você não ficar esperta ele sempre vai te derrubar, não é amigão? – Lenny pulou de alegria - Vem vou te mostrar o resto da casa.
  No primeiro andar tudo parecia organizado na medida do possível, sabe, para um homem que mantém a casa sozinho. Uma sala espaçosa, cozinha moderna e janelas grandes. Bem aconchegante para os meus padrões de exigência.
  Já o quarto de hóspedes pareceu ter sido descoberto por mim na hora que adentrei nele. Mas não liguei para a aparência abandonada, agora eu tinha um banheiro só para mim, o que significava que eu não precisaria mais desgastar minhas amígdalas todos os dias para apressar a minha irmã.
- Está ótimo, obrigada tio Dan.
- Se estiver com fome, a dispensa está a sua espera a qualquer momento.
- Pode deixar tio Dan, obrigada – repeti.
- Só uma coisa, tem que parar de falar obrigada – aguardou o meu sorriso envergonhado e me deixou a sós com o “meu” novo quarto.
  Tentei imaginar minha mãe e sua obsessão por limpeza ali, ela começaria a entrar em desespero assim que visse a primeira teia de aranha no canto do rodapé. Senti falta dela e do seu jeito neurótico.
  Resolvi abrir a janela para arejar o quarto e ao puxar a cortina dei de cara com a janela da casa vizinha exatamente na mesma direção que a minha. E se o vizinho fosse um maníaco estripador de meninas? É pelo visto a neurose era meio que genética.
ϟ   
  Olhei para o pequeno relógio vintage na prateleira empoeirada: meio dia. Quando desci para a cozinha, Dan estava de saída para o almoço no café.
-Você vem comigo?
   Acompanhei-o caminhando até lá.
 - Você poderia me ajudar no café pra ocupar o seu tempo. – Ele sugeriu.
- Acho que não terei escolha, não é?
- O pagamento rende uns bons trocados, mas é claro que a escolha é sua.
- Tudo bem, acho que um dinheiro a mais é sempre bem vindo - sorri.
 O café foi feito no estilo retrô, com direito a discos de vinil e piso quadriculado xadrez na decoração. É amplo e movimentado para uma cidade como essa. No fundo havia máquinas de jogos, caixas de som gritando rock dos anos 80 e mesas vermelhas com bancos duplos pra todos os lados.
- Você tem bom gosto- comentei.
- Na verdade a decoração foi ideia de seu pai, é uma pena ele não ter chegado a ver a reforma depois de pronta. Sinto falta dele.
- Ele era parecido comigo?
- Tirando a parte de você ser menina, a teimosia e a capacidade de convicção vieram do mesmo sangue.
 Pedimos tacos e comemos no balcão mesmo. Quando terminamos um menino loiro com covinhas que parecia ter mais ou menos a minha idade veio em nossa direção.
- Ei Dan, temos carne fresca hoje?- limpou a mesa.
- Lavynia esse é o Nick, meu braço direito aqui no café – Dan nos apresentou.
- E ai? – perguntei hesitante.
   Ele sorriu com os dentes perfeitamente brancos. - Querem mais alguma coisa? - Parecia ter saído daquelas séries adolescentes aonde existem garotos que costumam se dar bem com as garotas por todo lado, só que mais carismático.
 - O seu telefone está no cardápio? - Minha timidez não permitiu falar em voz alta. – Não, obrigada.
 Dan começou a me ensinar a atender as pessoas. Mesmo cansada da viagem achei melhor começar logo para não ficar entediada em casa.  Nick ajudou a me localizar, era mesmo um doce de garoto. Diferente dos caras de Manhattan que não têm paciência para nada a não ser se o assunto for dar em cima de meninas que eles querem levar para o quarto, se é que me entende.
 A tarde passou voando, fui embora antes mesmo do café fechar, precisava desfazer as malas. No caminho para casa, fiquei prestando atenção nas poucas pessoas que passavam por mim. Era estranho não ter mais a sensação da correria e vai e vem de cidade grande.
 Lenny me seguiu subindo até o meu quarto e me arrependi assim que entrei. A bagunça tomou o quarto. Não importa quanto tempo vou ficar fora sempre levo mais coisas do que realmente preciso. Maldita indecisão.
ϟ
Um vento frio soprou no meu ombro, avancei para fechar a janela. Ao olhar para a janela da casa ao lado vi uma revista do The Kooks cobrindo o rosto de um garoto deitado na cama que vestia apenas jeans rasgados e, bem, mais nada. (Continua).

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Esperar: ato ou efeito de morrer aos poucos



    Me dirijo até a última fileira vazia do trem. Pelo menos as cidades pequenas tem a vantagem de não ter trens lotados. Sempre fui a única -a esquisita-do meu grupo de amigos que gostava de ficar em silêncio. Com exceção do silêncio temperado à fones de ouvido no último volume.
    Ver as folhas caindo das árvores vítimas do outono e as águas do lago se agitando costumava relaxar qualquer preocupação que se apoderava de mim. Mas agora que você está a muitos quilômetros desse trem, esse remédio parece não ter o mesmo efeito.
    Paro em um local recheado de árvores intercaladas nas cores marrom, vermelhas e amarelas. Nossa última conversa foi exatamente nesse banco castigado pelo frio. A sua pressa em acrescentar uma formação ao seu nome, deixou o nós para o segundo plano, mas a minha ingenuidade não permitiu o nosso fim, digo, completamente.
    O tempo custou a passar, mas passou. E aqui estou eu, esperando por você. Esperando pelo seu suéter macio roçando no meu rosto, esperando pela sua mania de me deixar constrangida ao ficar me olhando do seu jeito estranho. Esperando pelo abraço que me protegia de tudo. Esperando pelo dia que eu teria isso mais uma vez.
    Aí tudo que tenho evitado lembrar invade meus pensamentos impiedosamente. Você não vai voltar. Não já, não hoje. Talvez algum dia apareça pra lembrar dos tempos que fugíamos da escola, desesperados por um aconchego no nosso lugarzinho nesse maldito parque. Ou talvez esse dia não chegue. Quem é que vai saber.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sobre o tal final feliz


 Sempre me disseram que a vida nunca vai ser como mostram os filmes clichês, onde a mocinha, o vilão e o venerado herói se encontram numa história que... Provavelmente você já conhece o final. Mas a verdade é, por mais ingênuo que pareça, acredito na magia, além do mais, que graça teria levantar todas as manhãs, acreditando que a vida é uma coisa normal e vai continuar a ser exatamente assim até o dia em que morrermos?
   Hoje mesmo, eu estava passeando nas ruas entediantes da minha cidade e vejo um casal de velhinhos abraçados num banco na praça. Sorrindo com os olhos, fiquei pensando se algum dia eu teria a sorte de ser como eles. Também terei um ‘príncipe’ que me aquecerá até as rajadas geladas do meu último inverno? Enfim, essa é só uma idéia de como eu imagino - desejo - meus últimos dias de respiração.
  Apesar de achar o ‘the end’ mais bonito quando a mocinha e o herói se beijam embaixo de chuva, há momentos na vida que não se pode colocar o ‘felizes para sempre’ como título do capítulo e simplesmente fechar o livro. A vida, infelizmente, está longe de ser uma coisa simples, existem ainda muitos capítulos a serem escritos por nós e pelas nossas escolhas.
   Ao contrário dos filmes, na realidade, nem os bilionários, nem os famosos, nem os bem sucedidos e muito menos a pessoa que você tem certeza que tem uma vida perfeita são totalmente felizes, ou pelo menos não o tempo todo. Vai existir um momento na vida das pessoas em que as coisas não vão sair exatamente como querem.
   Apesar de todas as contradições, ainda prefiro acreditar que a vida não passa de um longo - ou curto - filme, em que os personagens envolvidos se encontram e se desencontram, numa desarmoniosa busca por um lugar onde se encaixem no ‘grande quebra-cabeça’ - que normalmente chamamos de mundo. Nenhum personagem principal é feliz o filme inteiro, o que é uma estranha coincidência, não?

domingo, 7 de agosto de 2011

Apenas mais um quase conto de fadas




   - Atenção senhores passageiros, favor comparecer ao balcão de check-in, o voo partirá em 20 minutos.
   Vinte minutos. Esse era o tempo que eu tinha para decidir o destino da minha, um tanto quanto trágica, vida. Minha cabeça girava e parecia um emaranhado de cordas envolvendo nós. Uma confusão de pensamentos indo e vindo pareciam se chocar a cada segundo que passava.
  Partimos então para a parte que mudei o meu conceito sobre Dan.
  Na fria manhã desse não tão agradável dia, acordei com um beijo preguiçoso de um corpo que me aquecera confortavelmente a noite toda, o dele. O despertador berrava aquela música que escutamos no ônibus em que nos conhecemos e insistia em me forçar a sair da minha barreira de proteção contra a realidade. Coloquei meu sobretudo-de-todo-dia, tomei o meu cappuccino a goles e me joguei na frente de um taxi que por pouco não parou.
  Reuniões, decisões, críticas, café. Discussões, bocejos, reclamações, café. Essa era a minha rotina na sala de redação da Truddie’s, minha revista favorita desde que me conheço por gente, na qual tenho orgulho de dizer que trabalho. 
  Na porta giratória de saída do prédio, esbarrei com uma loira atraente, de olhar profundo e decote extravagante, que derrubou a bolsa que continha uma coleção inteira de batons e uma foto dele.  Ela ajuntou tudo apressadamente, pediu desculpas e saiu cambaleando em seu salto 15.
  Aquilo me derrubou. Não consegui ligar os pontos, como Dan pôde fazer isso comigo e de onde essa mulher surgiu?
  Eu só me lembro de ligar imediatamente para ele e ficar aguardando a sua voz traíra.

  - Oi, aqui é o Dan, estou por aí, deixa recado depois do bip... (Biiiiiiiip).

  Desliguei. Não consegui soltar o que estava entalado. Não consegui falar nem gritar, só consegui chorar e escrever. Deixei um bilhete completamente ensopado que dizia:

  É, acabou aquele nosso ‘felizes para sempre’ que eu ingenuamente, acreditava ser verdadeiro.
  Acho que não é necessário explicações, há uma foto sua tirada por outra mulher, que você deve conhecer muito melhor do que eu, e que... Fará isso por mim. Eu realmente vou descartar a ideia de continuar vivendo nessa cidade, porque cada vez que olhar para um ponto de ônibus lembrarei de você e do que foi capaz de fazer enquanto estava comigo. O que vai acabar me matando... Mesmo assim, não me arrependo de ter te conhecido, foi bom pra eu enxergar que você não era tudo aquilo que eu imaginava e parar de esperar tanto das pessoas de uma vez.
                                                                                           Até nunca mais.
                                                                                                         Becky

  Desde então, estou na fila do check-in para o embarque pra qualquer lugar que seja mais fácil de respirar, ou seja, bem longe de Dan. 
  De uma hora para outra, vejo a mulher loira aparecer no meio da multidão correndo desesperadamente.
  
 - Você é a Becky?

 Não teria respondido se não tivesse notado a tal foto em suas mãos.

- O que vai ser agora? Vai começar com ‘eu posso explicar’ ou ‘não é isso que você está pensando’?
  
Eu estava mesmo gritando ou era coisa da minha cabeça? Nunca tinha batido boca com ninguém até então.
  
 - Isso é seu? Acho que coloquei na minha bolsa por engano quando nos encontramos no outro dia na Truddie’s.
  
 É nesses momentos que a gente vê até que ponto uma pessoa pode mentir.

  - Você nem se esforçou! Vai me dizer que essa foto não caiu da sua bolsa.

  - Você pode ao menos ler o que está escrito no verso da foto? – Ela insistiu pacientemente.
  
Puxei-a com raiva, não tinha mais nada a perder.

  Eu sei, demorei demais para me dar conta do quanto eu estou gostando de você, Becky. Desde o dia em que te vi naquele ponto de ônibus e me sentei no assento vago no seu lado, ao som de Can’t Stand it do NeverShoutNever -é ridículo, mas eu lembro- a partir  daquele momento, seu sorriso sincronizando perfeitamente com seus olhos caramelados e seus cabelos levemente ruivos, não abandonaram mais a minha cabeça. Assim como o dia em que nos esbarramos pela segunda vez no corredor da universidade em que estudávamos, onde aconteceu nosso primeiro beijo e decorrente dele, a melhor noite da minha vida, que você tornou igualmente inesquecível. Porém nenhum elogio é páreo para descrever sua beleza, o toque da sua pele, e a vergonha que sempre me faz passar quando faz as suas caretas bobas em lugares públicos... Ao menos sabe tudo que já fez por mim ao apenas me conhecer? Não? Então tomara que uma vida inteira ao seu lado seja o suficiente para te mostrar, pois espero que aceite se tornar Rebecca West e deixar pra lá o ‘Montgomery’. Eu te amo muito e vou te esperar hoje à noite naquele ponto de ônibus pra receber a resposta junto com a minha dose diária de suas maluquices. 
                                                                                  Do seu idiota favorito,
                                                                                                     Dan             

  - Tem certeza que isso não caiu das suas coisas, mesmo?- a loira frisou.

  Fiquei sem reação... Não tinha me dado conta que a foto poderia ter sido tirada pelo próprio Dan e colocada na minha bolsa de surpresa. Abracei a mulher loira rindo e pedi desculpas. Como eu pude perder o controle tão bruscamente? De hoje em diante passei a adorar a palavra engano.
 Rasguei o bilhete da passagem e o encharcado também, tomei o melhor banho da minha vida e parti ao encontro do meu Dan -e de ninguém mais- rumo ao lugar onde tudo começou, e talvez - quem sabe? - ao meu merecido final feliz.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Você, quem?


 Hoje estou obcecada em uma ideia de ser feliz.
 Com os primeiros raios solares surgiu uma alegria dentro de mim, que nem eu sabia que poderia existir. De repente, o meu corpo com seus inúmeros defeitos pareceu perfeito no espelho, o meu cabelo pareceu mais bonito e meu sorriso brilhou. Foi como se todas as vontades de cantar até não agüentar mais, de dançar no meio da rua, de dar oi a qualquer desconhecido e sorrir para todos os idiotas que um dia me fizeram sofrer, explodissem de algum canto escondido.
 Acredite minha vida não é perfeita. Não tenho um talento especial que admire a todos. Meus problemas permanecem aqui. No momento, não estou com alguém especial que me faça esquecer que a realidade existe. Mas ainda assim estou feliz.
 Hoje me deu vontade de viver a minha vida surpreendentemente sem você nela.